Alimentação durante a pandemia: Fome de quê?


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Durante a pandemia as queixas sobre as dificuldades em “controlar” a alimentação tem aumentado. E, muitos trazem estas questões ao consultório como uma tentativa de que um outro possa lhe orientar, dizendo quando e o que comer. Nesse sentido, a busca deveria se direcionar a um nutricionista ou médico especialista no assunto, mas costumo entender o pedido do analisante, como auto percepção de que há um aspecto afetivo não conhecido envolvido no ato de comer. E aí sim, há terreno fértil para a atuação da psicanálise clínica.

Longe de tentar estabelecer formas de melhorar esse controle costumo tentar pensar, junto com aquele que se queixa, sobre o que vem sendo controlado. Há fome? Há fome de quê?

 

Quando falamos em alimentação há um termo moderno que trata dessa comida, que não é apenas alimento para garantir a sobrevivência: Comfort food. Em português, muitos tem falado em alimentação afetiva. São comidas que evocam um estado de prazer ou bem-estar. Essas comidas costumam vir relacionadas a memórias afetivas, comidas caseiras, conforto ou compensação.

 

É interessante relacionarmos esses conceitos a alimentação durante o isolamento. Muitos trazem dois tempos de alimentação durante a pandemia: um primeiro que foi marcado por um movimento de aproveitar tudo aquilo que anteriormente não era permitido. Com mais tempo em casa, surgiram comidas diferentes, bebidas alcoólicas que não precisavam mais do “sextou” para serem autorizadas, novas receitas, a possibilidade de comer enquanto trabalha, entre outras tantas realidades. Além disso, a ausência da necessidade de ser visto liberou alguns corpos de uma certa ditadura da beleza. As comidas nostálgicas ou de certo prazer e conforto físico foram destaque.

 

Contudo, o maior número de queixas recai sobre um segundo tempo, onde os sujeitos passaram a sentir que haviam perdido “o controle” da situação. A comida não precisava mais ser saborosa, trazer reencontro ou boas memórias. Não bastava mais comer, era necessário comer o tempo todo, sem motivo e uma coisa qualquer. Passou a haver uma maior demanda pela praticidade, afinal as pessoas ficaram mais cansadas com as rotinas sobrepostas. Mas houve, também, um aumento do consumo de comidas por compensação, de preenchimento necessário para lidar ou não lidar com outras situações que se apresentavam. Passou a ser necessário estar sempre cheio.

 

Vamos pensar? Se encher do quê? Para quê?

As relações mudaram durante o isolamento. Na ausência de um tanto de coisas que ficaram impedidas sobrou a comida, velha conhecida.

Nos novos tempos há muita coisa que não era da nossa rotina.

Há medo, há menos, há vazio…

As notícias nos chegam diariamente: os mortos aumentam, os familiares permanecem distantes, a flexibilização traz vontade e culpa.

O desconhecido é apresentado e re-apresentado.

O vazio que quase engole.

E assim muitos acabam se alimentando sem parar. Um movimento que lembra certa compulsão: “engolir para não ser engolido”.

Parar é importante? Depende…

 

Do que você está se alimentando, quando come?

Não é tão simples. É interessante descobrir que fome, dentre as muitas possíveis, buscamos saciar quando comemos. A minha aposta é de que existem outros caminhos e a comida pode ser só uma das muitas alimentações possíveis para o corpo, ainda que em tempos de reclusão.

 

Qual a sua história com a comida?

Muitas vezes, resgatar esse histórico é importante. Não é raro relatos de famílias que sempre se reuniram à mesa, de longos jantares com os amigos, do prazer de transformar alimentos na cozinha.

Quantos encontros interditados pela pandemia encontram na cópia de alguns pratos sua reprodução mais próxima. E que bom! Que bom quando um cheiro, um sabor, uma memória acalenta, conforta, mesmo em tempos distantes. Mas, fica o questionamento: é possível preencher tudo que fica vazio com comida? Em algum momento não bastará, serão necessárias novas coisas ou mais comida… Se iniciará um ciclo que dificilmente encontro o que busca.

 

Então, vamos falar dessa história?

Fazer análise é uma forma de lidar com esse vazio e,também, uma forma de elaborar um luto por tudo que foi perdido e que continuará sendo tomado de nós em tempos tão atípicos. É hora de falar desses medos, dessas perdas e dessa alimentação, para não ser engolido por aquilo que te alimenta. A comida pode ser um lindo capítulo da sua história.

Há muito para conquistar e comemorar comendo, mas que seja uma comida reconfortante, saborosa e sem culpa.