Eternos Devedores Gerenciais


Muito se fala do desequilíbrio da atualidade. O sujeito teria perdido seu referencial, seu centro de gravidade e sua sustentação na pós-modernidade?

Mario Sérgio Cortella e Pedro Mandelli trazem uma análise interessante dos fenômenos corporativos atuais em “Vida e Carreira: um equilíbrio possível?”. Nesse livro os autores identificam os trabalhadores, especialmente aqueles que se intitulam gerenciais, como um grupo de devedores. Eles entendem que os funcionários (empregados, colaboradores, recursos humanos….chamem como quiserem aqueles que produzem para uma organização!!) estão sempre em débito, seja com a empresa ou com a família.

E esse discurso é recorrente na clínica: “Minha esposa sente minha falta”; “Não fico tempo suficiente com o meu filho”; “Meu marido disse que trabalho demais”. Os gerentes da atualidade estão sempre devendo tempo, carinho, dedicação para a sua família, amigos, etc… Eles gerenciam sua equipe time (é mais bonito assim…), mas são incapazes de gerenciar seu tempo de forma hábil.

Mas, a empresa está 100% satisfeita com eles, correto?

Não, sempre falta para a empresa também. Eles sempre devem competência, empenho, satisfação. Em tempos de crise eles são ainda mais cobrados e é até ameaçados: o mercado está mais competitivo.

O que a psicanálise tem a dizer sobre essa realidade?

Primeiro podemos entender que aquilo que se coloca como falta pode ser, psicanaliticamente falando, um excesso. Sim, porque existem tantas possibilidades para esse sujeito que ele acredita que não deve ser interditado, que não existem limites. E, assim, ao ser questionado ou barrado entende que o problema são faltas suas, seus erros…suas dívidas.

Se antes a empresa era a continuação da sua casa, seu segundo lar…agora é um lugar de competição. Afinal o destino do trabalhador depende apenas dele, já que ele é o portador do seu fracasso ou sucesso.

O sujeito que “pode tudo” quando se vê falhando acredita que deve “consertar” “melhorar” e assim vai se constituindo como um eterno devedor. Nunca satisfeito e sempre em falta.

culpar-se-eh

É interessante que esse sujeito procure análise para poder, também, se desnudar da sua onipotência. Ali no divã ele pode, inclusive, não poder. Essa é nossa contribuição, permitir àquele que sofre, que possa errar e entenda que deve se responsabilizar pela sua vida, sim, mas isso inclui permitir que ele encontre seus limites e lide com isso de uma forma saudável: para além da culpa.

É hora de se permitir!!!